Apesar do avanço acelerado da Inteligência Artificial no ambiente corporativo, empresas brasileiras ainda enfrentam dificuldades para transformar interesse em implementação efetiva. O principal obstáculo não está necessariamente na tecnologia, mas na combinação entre falta de estratégia clara e escassez de profissionais qualificados para conduzir essa transformação.
Dados da HubSpot indicam que 98% das organizações planejam utilizar Inteligência Artificial. Na prática, porém, a adoção estruturada ainda avança em ritmo desigual. Relatório da Thomson Reuters aponta que 30% das empresas estão adotando IA lentamente, enquanto 40% ainda não possuem uma estratégia definida para a tecnologia.
A pesquisa “CTO Insights 2025”, realizada pela Impulso com 100 CTOs e líderes sêniores de tecnologia no Brasil, reforça esse cenário. Segundo o levantamento, 54% dos executivos apontam a falta de profissionais capacitados como o principal obstáculo para a implementação de IA. Em seguida aparecem desafios relacionados à cultura organizacional (48,3%) e expectativas irrealistas sobre o que a tecnologia pode entregar (39,1%).
Mesmo com o aumento do interesse corporativo, apenas 33,3% das empresas possuem equipes avançadas em IA e ciência de dados, enquanto 27% contam apenas com conhecimento básico. O reflexo é uma adoção ainda limitada: metade das empresas investe menos de R$ 100 mil por ano em iniciativas relacionadas à tecnologia.
Segundo o vice-presidente de Estratégia de Crescimento e Inovação de Portfólio da Keyrus, multinacional de tecnologia, Rodrigo Cruz, o principal desafio está em conectar o potencial tecnológico aos objetivos de negócio. “Muitas empresas querem adotar essa tecnologia, mas não sabem por onde começar. Elas veem cases de sucesso no mercado e querem resultados semelhantes. É fundamental lembrar que estratégia não significa esperar apenas ganhos de longo prazo. Com a abordagem certa, é possível capitalizar resultados no curto prazo enquanto se constrói uma jornada consistente e sustentável de médio e longo prazo. O importante é que os investimentos sejam guiados por propósito e direcionamento estratégico, para gerar valor real em todas as etapas do processo”, afirma.
Entre o entusiasmo e a execução
O crescimento do mercado global de Inteligência Artificial empresarial reflete uma mudança estrutural na forma como organizações encaram tecnologia e competitividade. A IA deixou de ser uma aposta futura para se tornar uma ferramenta estratégica na automação de processos, personalização de experiências e tomada de decisão orientada por dados.
Ainda assim, o desafio não está apenas na adoção, mas na capacidade de gerar resultados concretos. “A IA deixou de ser uma promessa futurista para se tornar uma necessidade competitiva imediata. Embora muitas empresas busquem a adoção rápida, é importante entender que apenas o seu uso estratégico traz realmente um retorno positivo”, destaca Rodrigo Cruz.
Um estudo do Goldman Sachs aponta que apenas 14% das grandes empresas aplicam a Inteligência Artificial de forma realmente eficaz em suas operações, indicando que a maturidade organizacional ainda é um fator determinante para o sucesso das iniciativas.
“O erro mais comum é tratar IA como uma solução tecnológica isolada. Na verdade, ela precisa estar integrada à estratégia de negócio, suportada por dados de qualidade e acompanhada por mudanças organizacionais profundas”, ressalta Rodrigo Cruz.
O dilema entre inovação e restrição orçamentária
A pesquisa da Impulso evidencia um contraste recorrente no cenário tecnológico brasileiro. Enquanto equilibrar inovação com resultados de curto prazo aparece como o segundo maior desafio para 59,8% dos entrevistados, 65,5% das empresas destinam apenas até 20% do orçamento para projetos de inovação. Apenas 5,8% ultrapassam 40% de investimento nessa frente.
“A distância entre ambição e realidade orçamentária obriga os CTOs a repensarem completamente suas estratégias. Entre escolher inovar ou manter as operações, há a necessidade de fazer as duas coisas simultaneamente, porém tendo em mãos apenas uma fração do que seria ideal”, explica o CEO da Impulso, Sylvestre Mergulhão.
A restrição de recursos se conecta diretamente à crise de talentos. Sem investimento consistente, torna-se mais difícil atrair profissionais especializados; sem esses profissionais, a capacidade de inovar permanece limitada.
“A IA está acessível, mas o conhecimento para implementá-la de forma estratégica não está. Muitas empresas acabam subutilizando o potencial da tecnologia por falta de pessoas que saibam fazer as perguntas certas e estruturar os problemas adequados”, observa o CEO da Impulso.
Dados, cultura e pessoas como base da adoção
Empresas que avançam na jornada de Inteligência Artificial têm em comum a priorização de infraestrutura de dados, governança e capacitação interna. O investimento deixa de estar concentrado apenas em ferramentas e passa a abranger processos e mudança cultural.
“Uma base sólida de dados é o que diferencia o hype da IA que realmente entrega valor. Não adianta aplicar algoritmos avançados se os dados estão desorganizados, se não há governança clara ou se as equipes não estão preparadas para trabalhar com essas novas ferramentas. O investimento precisa ser holístico”, destaca o vice-presidente da Keyrus.
O Gartner projeta que, até 2026, a capacidade dos Chief Data & Analytics Officers (CDAO) de promover o entendimento de dados e IA e desenvolver equipes qualificadas será um dos principais fatores para o sucesso das estratégias de negócio.
Já dados do CTO Insights indicam que mais da metade das empresas (52,9%) destina entre 21% e 40% do orçamento total de tecnologia para capital humano. Quando consideradas aquelas que investem até 60% em pessoas, o percentual chega a 94,2%. Ainda assim, 79,3% das organizações enfrentam dificuldades para contratar ou reter profissionais de TI, especialmente em posições sênior.
Outsourcing ganha espaço como resposta à escassez
Diante da dificuldade de formação e contratação de talentos especializados, modelos de outsourcing, a terceirização, são utilizados como forma de acesso mais rápido a expertise técnica. A pesquisa aponta que 58,6% das empresas adotam o modelo gradualmente, priorizando qualidade técnica (63,2%), seguida por custo (42,5%) e fit cultural (32,2%).
O movimento reflete uma mudança de percepção, uma vez que o outsourcing passou a se tornar uma alternativa de aceleração da inovação.
“Não há inovação sem pessoas preparadas. O principal desafio dos CTOs é conciliar velocidade, qualidade e escassez de talentos, estruturando formas de desenvolvimento e retenção que garantam impacto estratégico de longo prazo. O outsourcing bem-feito não substitui a equipe interna, ele a potencializa”, afirma Sylvestre Mergulhão.
IA é um diferencial?
A Inteligência Artificial vem se consolidando como um fator central na competitividade empresarial, exigindo das organizações não apenas investimentos em tecnologia, mas também maturidade estratégica e capacidade organizacional para sua implementação. A consolidação dessas iniciativas tende a fortalecer o posicionamento das empresas em um ambiente cada vez mais orientado por dados.
“Estamos em um momento decisivo. As empresas que agirem agora, seguindo uma estratégia clara e bem estruturada, terão vantagens. Por outro lado, aquelas que continuarem apenas observando o mercado correm o risco de ficar para trás de forma irreversível. A janela de oportunidade está aberta, mas não permanecerá assim indefinidamente”, projeta Rodrigo Cruz.
Mais do que uma atualização tecnológica, a adoção da IA representa uma mudança estrutural na forma como organizações operam, inovam e geram valor, e, cada vez mais, o sucesso dessa jornada dependerá menos da tecnologia disponível e mais das pessoas capazes de colocá-la em prática.
