A inteligência artificial já faz parte da rotina de muitas empresas e, em alguns casos, da vida pessoal dos profissionais. Ferramentas de análise, automação e IA generativa estão cada vez mais acessíveis, mas isso não significa que estejam sendo totalmente compreendidas ou usadas com todo o seu potencial. É justamente aí que surge uma pergunta central para líderes e profissionais: será que estamos preparados para trabalhar com IA de forma consciente, crítica e estratégica?
Os números ajudam a dimensionar o desafio. Pesquisas recentes mostram que a maioria das organizações já utiliza IA em ao menos uma área do negócio, mas grande parte ainda encontra dificuldades para transformar esses investimentos em resultados concretos. Ao mesmo tempo, o World Economic Forum estima que cerca de 40% das habilidades exigidas da força de trabalho global devem mudar nos próximos anos. Mais do que aprender novas ferramentas, é preciso repensar como se decide, como se lidera e como se constrói uma carreira neste contexto.
Quando a tecnologia avança mais rápido do que as pessoas
É aí que a alfabetização em IA, ou AI Literacy, ganha relevância. Diferentemente do treinamento técnico tradicional, ela diz respeito à capacidade de entender como os sistemas de IA funcionam, quais são seus limites, quais riscos envolvem e, principalmente, como seus resultados podem apoiar decisões melhores. É um tipo de conhecimento que atravessa diferentes áreas, cargos e níveis hierárquicos.
Para muitas organizações, o maior obstáculo não é tecnológico, mas humano. Mesmo com grande volume de dados disponível, decisões ainda são tomadas com base em intuição ou experiência isolada, sem apoio analítico consistente. Se as equipes não se sentem seguras para interpretar informações geradas por sistemas de IA, a tecnologia vira um elemento decorativo, presente, mas pouco transformador.
Decidir melhor, não apenas automatizar
A alfabetização em IA ajuda a romper esse bloqueio ao tornar o tema mais próximo e menos abstrato. Ao compreender os fundamentos da tecnologia, a IA deixa de ser vista como uma caixa preta e passa a ser encarada como uma aliada. Isso tende a se refletir na cultura organizacional, estimulando curiosidade, colaboração entre áreas e maior abertura à experimentação.
Outro efeito direto está no amadurecimento da tomada de decisão. Profissionais com este conhecimento desenvolvem uma relação mais equilibrada com dados: nem dependem cegamente dos sistemas, nem os ignoram. O resultado são decisões mais rápidas, bem fundamentadas e alinhadas ao contexto do negócio. Para quem ocupa posições de liderança, essa confiança é decisiva em ambientes cada vez mais complexos e incertos.
Do ponto de vista das equipes, a alfabetização também redefine o aprendizado. Quando conceitos são conectados a situações reais de trabalho, o conhecimento deixa de ser abstrato e passa a gerar impacto prático. Ambientes que permitem testar soluções de forma controlada aceleram a curva de aprendizado e reduzem o medo de errar, o que é um fator essencial para a inovação.
O impacto direto nas equipes e nas carreiras
Essas mudanças ajudam a explicar por que a alfabetização em IA vem sendo apontada como uma das competências que mais crescem em importância estratégica. À medida que a tecnologia se integra aos processos, as carreiras tendem a se tornar mais híbridas, abrindo espaço para profissionais capazes de transitar entre análise de dados, visão de negócio e habilidades humanas, como comunicação, senso crítico e ética.
Na prática, implementar a alfabetização em IA exige mais do que cursos pontuais. Iniciativas eficazes costumam combinar diferentes formatos, como trocas entre gerações, programas de mentoria e parcerias com instituições de ensino e pesquisa. A ideia é criar um aprendizado contínuo, que acompanhe a velocidade das transformações tecnológicas.
O impacto desse movimento já começa a aparecer. Organizações que avançam nessa agenda relatam maior agilidade na tomada de decisão, equipes mais engajadas e uma postura mais proativa diante da inovação. Para os profissionais, isso se traduz em maior empregabilidade e capacidade de adaptação, atributos que devem pesar ainda mais na construção das carreiras até 2026.
Aos poucos, a inteligência artificial vem se infiltrando no trabalho de forma menos mirabolante do que se imaginava. Ela aparece em relatórios mais rápidos, em análises que chegam prontas, em decisões que passam a ser tomadas com base em recomendações algorítmicas, mas nem sempre isso vem acompanhado de reflexão.
Em muitas organizações, a tecnologia avança enquanto as pessoas ainda tentam entender o que mudou. Aprender sobre inteligência artificial surge justamente nesse descompasso, como uma tentativa de dar nome, contexto e critério a algo que já está em uso. Conforme equipes e carreiras se reorganizam, compreender como a IA influencia escolhas, prioridades e responsabilidades avança como uma condição básica para trabalhar e liderar com lucidez nos próximos anos.
Paulo Simon é vice-presidente de Desenvolvimento de Negócios da Keyrus no Brasil.