A incerteza deixou de ser exceção e passou a ser condição permanente do ambiente de negócios. Oscilações econômicas, pressões regulatórias, mudanças geopolíticas e avanços tecnológicos acelerados tornaram previsões lineares insuficientes. Nesse contexto, a diferença entre organizações que reagem e aquelas que se antecipam está menos na velocidade e mais na solidez das decisões que conseguem sustentar.
Para Marileusa Cortez, Governance & Advisory Manager da Keyrus, estar pronto para o futuro não é tentar prever todos os cenários possíveis, mas construir estruturas que permitam decidir com clareza mesmo quando o contexto muda. Essa prontidão não nasce da tecnologia isoladamente, mas da confiança que a organização estabelece sobre seus próprios dados, confiança que sustenta a estratégia, reduz riscos e viabiliza escolhas conscientes em ambientes de alta complexidade.
Estar pronto para o futuro não é prever, é sustentar decisões
A ideia de prontidão costuma ser associada a inovação, agilidade ou adoção de novas tecnologias. Para Marileusa, essa leitura é incompleta. Em ambientes instáveis, o maior risco não é errar rápido, é errar com convicção baseada em informações frágeis.
Estar preparado exige conhecer profundamente o negócio, alinhar esforços de curto e médio prazo para garantir resultados concretos e, ao mesmo tempo, criar espaço para decisões estruturais. Os dados cumprem um papel central nesse processo, não como ativos isolados, mas como base para o entendimento real da operação, simulação de cenários e avaliação de riscos antes que eles se materializem.
Sem governança, esse potencial se perde. O volume cresce, os dashboards se multiplicam, mas a confiança não acompanha.
IA deixou de ser tendência. Governança virou condição
No debate sobre sinais e movimentos para os próximos anos, a Inteligência Artificial já não ocupa o lugar de novidade. Ela está presente, em expansão, e pressiona as organizações a reverem processos, modelos operacionais e responsabilidades.
O ponto crítico, na visão de Marileusa, não está apenas no que a IA é capaz de fazer, mas em como ela é utilizada. Quanto maior o grau de automação e autonomia, maior a necessidade de clareza sobre a origem dos dados, sua qualidade, os critérios de uso, os limites éticos e a atenção aos impactos regulatórios.
A mesma lógica vale para fatores externos que influenciam decisões estratégicas, como mudanças climáticas ou reorganizações geopolíticas que afetam cadeias de suprimentos. A preparação real passa por avaliar riscos com base em informações consistentes e testar hipóteses antes que a pressão por respostas rápidas comprometa a qualidade das escolhas.
Cultura orientada por dados começa quando o improviso termina
Há evidências claras de que organizações orientadas por dados apresentam melhores resultados financeiros e operacionais. Ainda assim, muitos movimentos recentes de digitalização foram impulsionados mais pelo receio de ficar para trás do que por objetivos bem definidos.
O resultado, em diversos casos, foi a criação de ambientes caros, fragmentados e difíceis de sustentar. O problema não foi a ambição, mas a ausência de uma estratégia conectada ao negócio.
Marileusa chama atenção para um paradoxo comum. Nunca houve tantos dados disponíveis, internos e externos, mas ainda existe uma enorme dificuldade em transformá-los em uma base confiável para decisão. Governança, nesse contexto, não é burocracia. É o mecanismo que transforma volume em valor, reduz ruído e permite adaptação sem perda de controle.
Tecnologia acelera. Pessoas sustentam
A adoção de IA Generativa tem ampliado a capacidade das organizações de acelerar análises, reduzir ciclos de desenvolvimento e ganhar eficiência operacional. Quando integrada a plataformas de dados bem estruturadas, o impacto é concreto.
Mas tecnologia não se sustenta sozinha. O principal vetor de resiliência continua sendo humano. As pessoas precisam confiar nas informações que utilizam, compreender os benefícios das mudanças e enxergar sentido prático no uso de novas ferramentas.
Governança também é sobre isso. Criar clareza, reduzir fricção e permitir que dados sejam usados com autonomia responsável. Quando esse equilíbrio não existe, a tecnologia avança mais rápido do que a capacidade da organização de absorvê-la.
Investir em dados é decisão estratégica, não técnica
Para Marileusa, a discussão sobre investimentos em dados e IA precisa começar fora da área técnica. Priorizar iniciativas exige alinhamento direto com os objetivos de negócio e capacidade de demonstrar impacto real.
Um erro recorrente é tratar dados como um centro de custo invisível. Líderes trabalham intensamente, entregam estruturas complexas, mas falham em traduzir valor para o restante da organização. O resultado é previsível. Decisões estratégicas seguem acontecendo sem dados, enquanto os times permanecem nos bastidores.
Governança bem posicionada muda esse cenário. Ela conecta dados à estratégia, fortalece a tomada de decisão e torna o valor visível, mensurável e defensável.
Escala exige autonomia com responsabilidade
Modelos totalmente centralizados não escalam. Modelos completamente descentralizados não se sustentam. Para Marileusa, a resposta está em estruturas híbridas, nas quais as áreas de negócio têm liberdade para usar dados, desde que orientadas por padrões claros, políticas bem definidas e um time habilitador com visão do todo, o fio condutor que faz a liga.
Esse equilíbrio evita conflitos de informação, garante consistência nos indicadores estratégicos e permite que dados e IA sejam utilizados de forma ampla sem perder coerência. Nesse modelo, a governança deixa de ser um freio e passa a viabilizar escala.
O conselho para líderes que planejam 2026
Resultados de curto prazo continuarão pressionando decisões. Ignorar essa realidade não é opção. O desafio está em não permitir que ela elimine o olhar de longo prazo.
Dados bem governados permitem identificar ineficiências rapidamente, corrigir rotas com base em fatos e gerar confiança interna sobre a direção tomada. Ao mesmo tempo, viabilizam análises externas, simulações e leituras antecipadas que ajudam a atravessar períodos de instabilidade com mais segurança.
A adoção de IA amplia esse potencial, mas também levanta questões importantes sobre desenvolvimento de conhecimento, formação de pessoas e impactos futuros no próprio negócio. Pensar nesses efeitos agora não é pessimismo, é maturidade estratégica.
Para Marileusa Cortez, a vantagem competitiva em tempos incertos não está em reagir primeiro, mas em decidir melhor. E isso só é possível quando dados, inovação, governança e pessoas evoluem juntos.
